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Antropofagia

Antropofagia 
Mirla Fernandes
Brasil
Maio 2010
 
Recentemente li um interessante texto de Marta Carmelo na Art Jewelry Fórum dando voz aos mexicanos e comentando como o Simpósio Gray Área, ocorrido no México em Abril deste ano, trouxe novos conceitos e propostas para os joalheiros contemporâneos locais. Eu também li textos de europeus que ao voltarem para casa também se questionaram sobre o seu posicionamento no mercado. Como uma das duas brasileiras presentes nas mesas-redondas e palestra do evento, eu gostaria de dar o meu depoimento também.

Primeiramente eu gostaria de introduzir o conceito de Antropofagia e como ele é estritamente ligado a identidade brasileira.
De acordo com Ana Maria Belluzo em seu livro “O Brasil dos Viajantes”, as primeiras imagens da América datam do século XVI. Segunda ela, o nome América deriva de Américo Vespuccio e reflete a vontade de superação de um estado lendário. Além do Atlântico tudo era lenda, de forma que o testemunho dos viajantes adquiria um valor de verdade e suas imagens eram tratadas como evidências destas verdades.

Um dos mais destacados entre esses viajantes foi Hans Stade. A imagem acima relaciona-se a ele e descreve uma cerimônia onde os índios brasileiros estão comendo uma pessoa: antropofagia.
Trata-se de uma imagem chocante para os dias de hoje se você foca sua atenção nos cabelos e acessórios dos índios, sem falar em sua estrutura corporal renascentista...Pode-se ter uma idéia de como imagens podem ser usadas para manipulação e criação de falsas idéias há muito tempo.

Seus relatos que datam do século XVI se tornaram lenda por aqui. Staden, em sua narrativa na primeira pessoa confessa seus medos, premonições e confessa que mente, deixando a veracidade dos conteúdos do relato em dúvida. Essa ambigüidade no texto cria uma tensão entre a realidade que ele experimenta (ele chegou a ser capturado por uma tribo onde era tratado como animal de estimação) e a descrição ficcional que acaba envolvendo o leitor. Essa narrativa influenciaria enormemente a imagética sobre o Brasil e se tornaria uma das bases do livro Macunaíma do escritor modernista Mario de Andrade.

Andrade foi uma das figuras chave no movimento modernista que tomou conta das artes plásticas e literatura no Brasil durante a primeira metade do século passado. O movimento também contou com outros escritores e artistas que estavam engajados na busca de uma identidade artística nacional. A maioria deles estudou ou viajou para a Europa para complementar seus estudos entrando dessa maneira em contato com as vanguardas artísticas modernistas européias. Ao voltarem, iniciaram a criação de teorias e manifestos que eram o resultado de uma mistura: as influências européias, indígenas e africanas. O resultado dessa mistura não manteve as características originais da influência européia, mas foram mais uma apropriação do estrangeiro fundido as características nativas levando a uma forte distorção. Essa abordagem artística foi chamada de antropofágica. As influencias eram ingeridas, digeridas e expelidas em algo totalmente diferente. Foi a solução deles para a questão da dependência cultural.

A pintura Abaporu de Tarsila do Amaral é uma das imagens que mais marcaram o período.

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Pintura Abaporu de Tarsila do Amaral

Mas afinal, por que falar disso? O que tem a ver com a joalheria contemporânea, com a Art Jewelry?

Bem, a razão é que vejo um momento semelhante no cenário da joalheria contemporânea nacional.  Voltando do Simpósio  pudemos perceber que todos os latino americanos que se apresentaram estudaram fora: assim temos o primeiro ingrediente.
A maioria dos joalheiros latino-americanos, ao serem confrontados com a influencia estrangeira voltaram-se a suas raízes em busca da própria expressão criativa. Acredito que agora estejamos alcançando um segundo estágio: uma contaminação mais ampla de outros criadores joalheiros nacionais.

Embora haja grandes esforços por parte de organizações como Otro Diseño, Metalísteria e mais recentemente NOVAJOIA, acredito que há um elemento importante faltando: escolas devotadas ao ensino da Art Jewelry. Eu uso a palavra devotadas pois demanda um esforço incansável. Como exemplo, cito o fato de após 2 anos de tentativas o projeto NOVAJOIA finalmente teve suas propostas de cursos aceitas por duas faculdades de arte. Estamos muito animadas com a oportunidade de divulgar aquilo que acreditamos. Nós provavelmente teremos a disponibilidade desses espaços institucionais para receber artistas estrangeiros e aumentar o intercâmbio.

Em tempos onde um único testemunho não se transforma em lenda, onde informação pode ser facilmente alcançada, nós deveríamos nos comunicar com freqüência e interagir mais, mas não apenas virtualmente.

Esse intercâmbio intenso não é bom apenas para os mercados emergentes como o nosso, mas para os já estabelecidos uma vez que eles também caminham em direção a saturação e excesso de competitividade. Por formarmos um grupo relativamente pequeno, artistas joalheiros deveríamos nos unir globalmente e divulgar mais ativamente nossas idéias e peças, facilitando assim a criação de novos pólos de interesse global.
Termino por aqui deixando a idéia de que participação e envolvimento podem melhorar as perspectivas futuras. Em minha opinião o Simpósio Gray Área assim provou.

Mirla Fernandes, Maio 2010


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the body, 2005, látex, photographer: André Penteado


 

 

 

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