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JOALHARIA CONTEMPORÂNEA EM PORTUGAL
DAS VANGUARDAS DE 1960 AO INÍCIO DO SÉCULO XXI
DA AUTORIA DE CRISTINA FILIPE [MEMBRO PIN]

RECENSÃO POR LAURA CASTRO

Editado em 2019 em duas versões – portuguesa e inglesa – apresentado em Lisboa, Porto e Berlim, este livro propõe uma abordagem histórica e crítica da joalharia contemporânea em Portugal. Com uma organização de grande clareza, a obra compõe-se de duas partes dedicadas a “Conceitos e Enquadramento” e “Artistas e Contextos” – esta optando por um tratamento por décadas – seguidas de um extenso documentário fotográfico e de uma cronologia do período 1963 a 2004, datas que assinalam os limites cronológicos da investigação subjacente.

Tendo há muito sido ultrapassada a dicotomia entre artes maiores e menores e tendo a história da arte nas últimas décadas conhecido um alargamento significativo do seu objecto de estudo, a joalharia, como outras práticas artísticas, continua a ter um lugar secundário nas histórias da arte gerais e foi residualmente contemplada por Rui Afonso Santos no capítulo sobre o design moderno e contemporâneo, na História da Arte Portuguesa, dirigida por Paulo Pereira, em 1995. Tal como acontece – e cito apenas a título de exemplo – nas artes digitais ou no design gráfico, são os próprios artistas quem tem vindo a reflectir, a teorizar e a produzir discurso sobre elas. Têm-no feito com êxito, uma vez que esses actores possuem a terminologia, o conhecimento interno das especificidades, dos condicionalismos e das especulações próprias dos meios de criação. Sem visar a substituição do discurso historiográfico, constituem contributos importantíssimos para o conhecimento das práticas artísticas contemporâneas. Foi o que fez Cristina Filipe, artista, que realizou uma profunda investigação de doutoramento, defendida em 2018, com o trabalho Trajetórias da Joalharia Contemporânea: Artistas e Contextos (1963-2004) que viria a ter como resultado este livro.

Com uma orientação que atenta, não apenas aos artistas e às obras, mas a todos os componentes do sistema artístico, incluindo os fenómenos das esferas da produção, da mediação e da recepção artísticas, a autora faz um completíssimo retrato da joalharia contemporânea em Portugal que inclui o seu lugar institucional e extra-institucional. São, deste modo, enunciados e caracterizados museus, galerias e exposições; catálogos e outras publicações; escolas e centros de formação; concursos, simpósios e encontros; viagens dos artistas e estadias fora de Portugal.

Importa salientar, no entanto, que esta análise da evolução da joalharia entre os anos 60 e os primeiros anos do século XXI, é feita através de metodologia que integra a joalharia no percurso da arte contemporânea em Portugal, que procura mais convergências do que divergências e contraria, desta forma, a hierarquia centro/margens que pesa ainda sobre a abordagem destes temas. O entendimento da joalharia é feito, não com base no critério essencialista do meio – o que levaria, uma vez mais, à marginalização desta prática – mas com base na conceptualização, nas referências e na problematização apresentadas pelos artistas. Dito de outro modo, a joalharia permite ler a forma como a arte contemporânea se estabelece e as intersecções com outros territórios de preocupação e influência.

Por outro lado, ao revelar a joalharia realizada por artistas plásticos, é a biografia artística dos autores que sofre uma revisão importante; ao situar a joalharia no contexto da renovação radical do panorama artístico dos anos 60 em diante, em termos de categorias, materiais, conceitos, problemáticas e propostas, é o conhecimento da arte em Portugal que se actualiza e aprofunda.

As 32 páginas de cronologia constituem um instrumento de trabalho, doravante incontornável, para todos os que se interessarem por este campo de estudo.

Do documentário fotográfico incluído, diremos que é excepcional, não apenas pela quantidade de imagens reproduzidas (190), mas pela performatividade em que assenta. Através da utilização de modelos oriundo do campo da cultura portuguesa e não do universo da moda, constrói-se uma galeria de poses, experiências e envolvimentos que permitem entender a joia no corpo e a joalharia nas suas circunstâncias. E, se para um público internacional, as alusões não serão certamente apreendidas, para o público português elas evidenciam um quadro de afinidades electivas que cruzam emoção e conhecimento. O mesmo se poderia dizer das fotografias do pai da autora, como atleta medalhado, que abrem e encerram o volume e que, para lá de citarem a medalha como joia, insinuam a metáfora desta corrida de fundo que a autora empreendeu.

Ao longo desta investigação, Cristina Filipe fez dezenas de entrevistas a artistas portugueses, cuja publicação está já a ser preparada. Aguarda-se com expectativa esse livro que passará a configurar uma fonte imprescindível para a pesquisa em joalharia, para a qual os catálogos, escassas monografias sobre instituições de ensino e alguns trabalhos académicos de mestrado e doutoramento continuam a ser os materiais dominantes.

O livro foi editado graças à bolsa Susan Beech Mid-Career Artist Grant concedida à autora pelo Art Jewelry Forum, sedeado nos Estados Unidos da América. Esta é uma organização privada, instituída em 1997, que se dedica à promoção da joalharia contemporânea, nas dimensões da produção, formação, exposição, conhecimento e colecionismo.

Paralelamente à edição, teve lugar no Museu Calouste Gulbenkian, no mesmo ano de 2019, a exposição “Joalharia Contemporânea em Portugal”, no âmbito do programa “Convidados de Verão”, com curadoria de Cristina Filipe, que estabelecia uma aproximação cronológica, conceptual, formal ou simbólica entre as joias mostradas, a Colecção Moderna da Fundação e a designada Colecção do Fundador.

Este vasto projecto, que engloba a tese de doutoramento, o livro e a exposição, constitui um momento de grande relevância para a historiografia da arte contemporânea em Portugal.

Cristina Filipe é natural de Lisboa, onde vive e trabalha. Desenvolve actividade como artista, professora e investigadora. Estudou no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, na Academia Gerrit Rietveld, no Royal College of Art, no Surrey Institute of Art and Design, onde terminou mestrado em 2001, e na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, onde concluiu doutoramento em 2018. Foi Bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação para a Ciência e Tecnologia. É co-fundadora da PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea e sua Presidente desde a fundação em 2004. Expõe o seu trabalho desde 1986. Ganhou o Jungent Gestalt Prize (1989) e o I Prémio no Concurso Jovens Criadores (1990) entre outros.

 

Laura Castro* é investigadora  no Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR), da Escola das Artes – Universidade Católica Portuguesa. Professora Assistente na Escola das Artes – Universidade Católica Portuguesa, Porto. Investigadora, curadora e ensaísta em arte moderna e contemporânea; arte pública; arte e paisagem; arte e género; exposições de arte e museologia. Membro do APHA – Associação Portuguesa de Historiadores de Arte e AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte. Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, da Escola das Artes – Universidade Católica Portuguesa.

*A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

 

 

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O livro encontra-se à venda no MUDE – Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo, na Fundação Calouste Gulbenkian, na STET, na Sociedade Nacional de Belas Artes, na Ferain, na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), na Almedina, na Livraria da Travessa e na Flaneur (Porto). O livro poderá ainda ser adquirido através da autora (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.). Apenas na versão inglesa através da editora Arnoldsche Art Publishers.

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