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«A Madrinha»

Madalena Braz Teixeira

Maio 2020

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A minha Mãe nasceu em Lisboa, exatamente um ano após a implantação da República. Em casa, chorava-se ainda a partida da Família Real para o exílio. Era viva a avó Glória, cujo nome denotava desde logo uma homenagem à mulher-rainha1 que tanto se amara e que tinha «morrido a cumprir o seu dever de mãe». A madrinha escolhida foi uma tia, casada em segundas núpcias com o tio João, irmão da avó Glória.

O casal vivia numa quinta no Ribatejo, mais precisamente em Alpiarça. A mulher do tio João, a tia Maria Luísa, recebera pela morte do primeiro marido, o Visconde de Alpiarça, lavrador e ganadeiro ribatejano, avultados bens que lhe deram ocasião para, com a maior liberalidade, fazer as mais diversas ofertas a pessoas e instituições locais, o que lhe valeu, no fim da vida, vir a ter o seu nome gravado na tabuleta de uma rua de Alpiarça, ainda existente naquela vila. O mesmo tinha acontecido, após a morte do seu primeiro marido, de quem, aliás, nunca tivera filhos. Assim, o nascimento de uma sobrinha, a quem deu o nome, foi mais que justificação para mais uma vez demonstrar a sua generosidade com a pequenina que acabava de nascer.

Cedo ouvi contar histórias sobre a prodigalidade dessa senhora que, não tendo filhos nem herdeiros, inventava pretextos para atender ao que lhe era solicitado na vila, nas mais diversas ocasiões e acontecimentos. Apreciava vir a Lisboa para tratar dos seus chapéus e dos trajes do seu guarda-roupa, demorando-se se na capital para visitar os joalheiros da coroa e adquirir na Casa Leitão & Irmão, peças de valor e de requintado gosto para oferecer aos seus familiares. Foi assim que, por herança da minha mãe, me veio parar às mãos uma peça de joalharia francesa do princípio do século XX, presente da tia-madrinha Maria Luísa para a bebé. A jóia escolhida estava destinada a uma menina que iria crescer e usar um alfinete de peito, no formato de medalha com a efígie de Nossa Senhora e que se destinava a ser uma peça de proteção da Mãe do Céu sobre a recém-nascida.

Anos mais tarde, fui vendo a minha Mãe usar frequentemente, em momentos festivos, a jóia azul. Recordo com mais intensidade, sendo eu já adolescente, o surgimento de uma moda feminina, na década de 50, entre as senhoras lisboetas pertencentes a um grupo de espiritualidade designado por Noelismo. Consistia no uso ao peito de uma jóia, ou de uma medalha, alusiva a Nossa Senhora, em ouro ou prata, encimada por uma fita com laço de cetim azul, o qual corresponde desde o Renascimento à cor usada pelos pintores para representar a Virgem Maria. A minha mãe dispensava a fita de cetim porque a joia em causa era encimada por um laço de ouro branco, rodeado de pequenos diamantes donde saía a medalha propriamente dita, de forma ovalar, tendo um fundo vítreo de um magnífico azul opalino em que se destaca a assinatura do escultor deste camafeu sobre ágata azul, com as letras JB inscritas num círculo. Sobre a pedra semipreciosa azul, assenta um baixo-relevo em branco leitoso, levemente transparente, com a figura de uma jovem Nossa Senhora, de dupla auréola. Segura nas mãos, sobre o peito, umas hastes com flores, desenhadas na diagonal, dando leveza e doçura ao medalhão, o qual expressa também uma acentuada intenção naturalista e campestre.

A memória não me podia falhar dada a qualidade da peça e o ato cerimonial do seu uso que, nesse tempo, ocorria a 8 de dezembro, dia em que se celebrava a festa da Imaculada Conceição, Padroeira e Rainha do nosso país desde 16462, havendo feriado nacional. Nessa época, comemorava-se o Dia da Mãe nessa mesma data. Como esta solenidade acontecia próxima do Natal, dava azo a que a devoção a Maria, expressa no uso de uma jóia alusiva, se prolongasse, conforme os casos, pelas restantes festividades religiosas do mês de dezembro.

 

Madalena Braz Teixeira

9 de abril de 2020

 

1 Referência a D. Maria II, nascida e batizada no Rio de Janeiro, em 1819, com o nome de Dona Maria da Glória.

2 D. João IV, primeiro rei da dinastia de Bragança, proclamou Nossa Senhora da Conceição Padroeira e Rainha de Portugal nas cortes de Lisboa de 1646.

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