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Espaço da exposição © Nuno Pereira, ESAD 2013

 

Percursos na joalharia Portuguesa
Semana da joalharia
ESAD, 3-7 de Jun de 2013
Reflexão crítica, Ana Campos


Nesta semana a ESAD foi ao encontro de vários joalheiros para diálogos abertos a um público variado. Conjugou dois eventos: uma exposição e um núcleo de conferências. A exposição reuniu atuais alunos, mestres graduadas na ESAD e uma aluna Erasmus. As conferências incluíram convidados, assim como mestres e outros diplomados na ESAD.
 
Exposição

Na exposição, Áurea Praga mostrou peças que dão a conhecer o seu próprio percurso na ESAD. Incluiu as três peças Face it desenvolvidas em 2010 no âmbito do Projeto Final da Pós-graduação em Design de Joalharia. Trata-se de um projeto crítico sobre as manipulações voluntárias do corpo, rumo a tipos de beleza culturalmente aceites. O título constitui-se como um apelo a que encaremos reflexivamente esta realidade, tanto quanto os mecanismos de divulgação que, como o canto da sereia, nos convidam a pertencer a este universo onde a estetização se alia tanto a tipos de mercado, como à medicina estética. Do Projeto de Mestrado, concluído em 2012, mostrou uma seleção de ilustrações e de peças, que – como apresentou na sua conferência – se associam à obra Le Carnaval des Animaux de Camille Saint-Saëns, cujos 14 momentos musicais interpretou.The Carnival of the Animals, de Áurea Praga, pode ser entendido como obra multimédia, já que associa essa música, transportando-a e fazendo-a conviver com outros meios.  Nesta intersecção, o corpo humano torna-se uma referência, através das peças de joalharia. Como a própria defende, as peças consistem em artefactos narrativos cujas referências formais e significados surgiram da interpretação da história e fazem parte dela, intervindo e participando nas situações propostas pela obra musical. Também mostrou uma série recente de anéis, intitulada Animal Shadows que advêm do desenvolvimento de conteúdos metafóricos da peça Animal Shadow, que se inclui em The Carnival of the Animals.


Trabalhos de Áurea Praga © Katja Tschimmel, ESAD 2013


Teresa Dantas concluiu o Mestrado na ESAD em 2012. Intitulou-se Construção de conteúdos e de sentidos em joalharia artística. Este integrou o projeto A pão e água de que, nesta exposição, mostrou parte das peças. Do ponto de vista do projeto, argumenta sobre o consumismo e a crise atual. Questiona-se e propõe-nos pensar em viver a vida de outro modo. O pão e a água funcionam como metáforas, remetendo-nos para o mais indispensável na vida quotidiana. Desenvolve uma linguagem metafórica resultante do enquadramento teórico, onde principalmente se pergunta em que medida os materiais podem contribuir, como conteúdos metafóricos, para construir sentido.


Trabalhos de Teresa Dantas © Katja Tschimmel, ESAD 2013


Ana Duque realizou na ESAD, em 2013, o Projeto Final de Carreira, desenvolvido no âmbito de intercâmbio Erasmus entre a ESAD e a ESDA Valência - Espanha. Tal como os dois casos anteriores, mostra que um certo tipo de joalharia, como toda a arte, não anseia por mudar o mundo, mas propõe-nos pensar sobre aspectos da  própria joalharia, da vida ou do mundo. Joalharia é uma palavra polissémica. É comum ser considerada como um meio que sublinha visibilidade. Umas vezes indica estatuto social ou luxo, outras é um acessório de moda e, entre tantas outras mais, inclina-se para o campo da arte. Nesta último caso, propõe dar a pensar sobre algo relacionado com a vida contemporânea. O projeto Ice jewellery situa-se neste último campo. Através de um vídeo de Mário Melo, filmado em tempo real, argumenta sobre ícones da “alta joalharia” e aspectos da vida a que esta está ligada. Propõe dissolver e refletir esses ícones, ao argumentar através de joias tão efémeras quanto o gelo.

Ice Jewellery de Ana Duque © Katja Tschimmel, ESAD 2013

Ice Installation de Ana Duque  © Nuno Pereira, ESAD 2013


Ice Jewellery de Ana Duque  © Nuno Pereira, ESAD 2013


Finalmente a exposição inclui peças de alunos dos 2º e 3º anos: Andreia Moutinho, Catarina Reis, Cláudia Gomes, Débora Vilar, Emanuel Gomes, Isabel Alves, João Ribeiro e Mariana Vasconcelos. Destaca-se um projeto desenvolvido em parceria entre a ESAD e a loja THE Design, que está em desenvolvimento desde 2008. Do ponto de vista da ESAD, envolve projetos que interpretam o conceito [in]completo. Corresponde a explorar um conceito relacional, isto é, um que está em aberto. Sem detrimento da proposta do aluno-autor, cada um propõe formas que a usuária possa continuar, recriando e recreando formas de usar, acrescentando algo de si. A THE aposta em vestir criativa e heterogeneamente. Baseia-se em pesquisas para além do circuito de tendências ou modas e na vontade de criar algo original e intemporal. Também se demarca pela versatilidade das peças escolhidas e pelo desafio à usuária, para que continue a obra.


Projecto THE (in)complete collection  © Nuno Pereira, ESAD 2013

 

Conferências

O panorama geral das conferências, que decorreram no último dia da semana, também nos mostrou que a joalharia é polissémica. Acima de tudo, sublinhou que, dentro de cada caso, – aqui da arte e do design –  tanto as linguagens, como as abordagens são múltiplas, neste caso, tanto teóricas como projetuais, como ambas associadas. Foi também brevemente apresentada a PIN - Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea, o seu percurso nestes dez anos e os múltiplos papéis e serviços que tem desempenhado.

José Carlos Marques, mestre pela ESAD em 2011, reapresentou a sua dissertação. Trata-se de uma reflexão teórica profunda sobre a joia como meio de comunicação. No mundo em que vivemos, somos diariamente assolados pelas mais variadas formas de comunicação visual, entre outras a publicidade. Reveste as cidades de luzes, de cores, de logótipos. Nas sociedades primordiais, os corpos eram revestidos de adornos, não tanto para embelezar, mas para comunicar com o propósito de identificar e diferenciar os papéis sociais dentro de um dado grupo. Entretanto, as cidades contemporâneas estão dominadas pela visibilidade, por imagens-placebo que nos assediam mercantilmente. A joalharia escapará à visibilidade? Se a questão é esta, como será entendida pelos invisuais? Já que esta dissertação se centra na comunicação, a apresentação visual foi também extra-ordinária, isto é, fora do ordinário, do quotidiano impensado, articulando filmes e imagens sobre o tema central. A maior surpresa, como em todos os trabalhos reflexivos, é aquela que, criativamente, nos dá a pensar. Surgiu quando as luzes se apagaram e a audiência ficou provisoriamente cega. Assim propôs refletir sobre a questão anterior: como será a joalharia entendida pelos invisuais?


José Carlos Marques  © Nuno Pereira, ESAD 2013

Lia Gonçalves, mestre pela ESAD em 2011, e Liliana Guerreiro, que se diplomou na primeira licenciatura do curso de Artes/Joalharia desta instituição, deram a conhecer projetos que se inscrevem no âmbito do design. Isto é, mostraram que a fronteira entre arte e design, neste curso, é tida como porosa. Os seus percursos profissionais e no âmbito do design são diferentes. Lia Gonçalves mostrou peças desenvolvidas após o mestrado. Ainda que desenvolva peças em série e se preocupe com dar respostas ao faixas de mercado, sublinhou a preferência pelo trabalho manual. Modelando ceras, reexplora um tema projetual que tem sido desenvolvido na ESAD, visando criar peças mais orgânicas, com uma identidade diferente dos múltiplos que o mercado tem apresentado. Liliana Guerreiro, desde 2003, trabalha numa perspectiva de design social com os irmãos filigraneiros Joaquim e Guilherme Rodrigues da Silva, cuja oficina se situa na aldeia de Travassos. Despe a filigrana dos tradicionais ornamentos barrocos e, tornando esta técnica um meio estrutural, cria peças com uma linguagens contemporâneas. Assim, dirige-se a novos públicos, não apenas nacionais.


Lia Gonçalves  © Katja Tschimmel, ESAD 2013


Diálogo entre Ana Campos e Liliana Guerreiro © Katja Tschimmel, ESAD 2013

 

Áurea Praga e os convidados externos, Pedro Sequeira e Manuel Vilhena, deram a conhecer projetos que se inscrevem no âmbito da arte. São muito diferentes os seus percursos académicos tal como os profissionais e artísticos.

Áurea Praga salientou no seu estudo a componente desenho, incluída no já referido mestrado. Deu a conhecer a tipologia do desenho em que se baseou, os tipos que a esta acresceu e aqueles que tomou como suporte da narrativa desenvolvida. Os contributos que o desenho lhe forneceu foram partilhados pela audiência, maioritariamente composta por joalheiros, que funcionam numa área carente de estudos sobre este meio de expressão e representação. Por fim, apresentou uma montagem que articula a obra musical Le Carnaval des Animaux, fotografias de peças e desenhos que, embora esteja ainda em curso, mostra já sucesso.


Áurea Praga © Katja Tschimmel, ESAD 2013

 

Pedro Sequeira tem um rico e variado percurso artístico, desde técnico em joalharia, à frequência deste mesmo ramo na Academia de Belas Artes de Munique, com Otto Künzli, passando pela fotografia e finalmente pela realização de um mestrado em desenho na FBAUP. Situa-se longe dos artistas que preferem criticar aspetos do mundo e da vida contemporâneos, da guerra, da crise ou mesmos dos joalheiros que, através de peças ou intervenções em joalharia, criticam outros tipos de joalharia. O seu trabalho, que interseta estas áreas, sobressaindo uma ou outra, salienta sempre uma recorrência reflexiva. Através de peças delicadas, busca, num percurso em processo, sem fim em vista, formas primordiais, sendo o círculo uma constante.


Pedro Sequeira © Nuno Pereira, ESAD 2013


Debate entre Lia Gonçalves, Áurea Praga e Pedro Sequeira moderado por Katja Tschimmel © Nuno Pereira, ESAD 2013

 

Quem, na audiência, nunca tivesse estado numa conferência de Manuel Vilhena ficou certamente surpreendido. Não menos surpreendido ficou quem já o ouviu muitas vezes, porque o conteúdo nunca é igual. Tem um dom comunicativo natural que explora criativamente. Capta sempre as audiências com uma capa de humor, através de imagens e palavras. Esta é uma estratégia comunicativa relacional para levar o público para caminhos profundos e reflexivos. Assim, explicou o seu percurso criativo, as questões que se vai pondo, as opções ou as respostas  que se vai dando, as peças e intervenções que foi desenvolvendo, as experiências que propôs ao público por esse mundo fora. Porque a arte não é inimiga do mercado, como considerava Walter Benjamin, porque não rejeita os colecionadores e é consensual que nunca foi inimiga dos mecenas, também focou abertamente estes campos. Entre risos e uma atenção a cada detalhe, a audiência conheceu o seu percurso entre o pensar e o fazer. Terá ficado a pensar sobre ele e voltará sempre que souber que pode assistir a mais uma lição sua sobre criatividade comunicativa.  


Manuel Vilhena© Nuno Pereira, ESAD 2013

 

Ana Campos, Junho 2013

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